Luís Antero | Gravações Sonoras de Campo (Field Recordings)


 

Texto de Carlos Alberto Augusto no âmbito da edição do trabalho sonoro Torre da Paz, editado na SonicTerrain - http://sonic-terrain.com/releases/str022/

[PT]

O compositor não pode excluir nenhum som do seu reservatório de matéria prima. Tal como o pintor não pode excluir nenhuma cor da sua paleta. A escolha ou exclusão, feita pelo artista, deste ou daquele som, desta ou daquela cor, está apenas condicionada pela sua história, experiência, ambiente e, no final, pelo seu impulso criador.

Qualquer escolha é, pois, legítima e inquestionável. O efeito de estranheza que algumas escolhas provocam explica-se quando elas são observadas no contexto do acto criador. Qualquer exclusão operada fora deste contexto é suicídio artístico.

Em todas as definições de música, mesmo nas mais conservadoras, procura-se em primeiro lugar valorizar o som, atribuindo-lhe qualidades musicais, de acordo com a forma como os diferentes sons são combinados.

Música é a "arte de combinar os sons para (...) falar aos sentimentos e comover a alma", diz o Dicionário de Música, ou "som organizado", como propôs Varèse, ou "expressão da inteligência humana através do som", de acordo com Xenakis. Música, parecem querer dizer-nos estas definições, é som estruturado. Limitar os sons e as estruturas a que atribuímos qualidades musicais não limitará então a amplitude da expressão da nossa inteligência? Por ser mais abrangente, prefiro por isso a definição de Fabre d'Olivet, o pensador, poeta e compositor francês do século XVIII.

Ciência e arte, música e ruído, consonância e dissonância são hoje categorias falsamente opostas. A intermutabilidade entre a arte e a ciência, a linha ténue que separa a música do ruído, a reversibilidade das consonâncias e dissonâncias, tornaram as fronteiras entre estas oposições inúteis e o seu confronto indesejável. É preciso ir mais além. O som, os sons, e as estruturas que os regem não podem servir só para comover a alma.

Muitos compositores e artistas sonoros, passando por cima de falsas oposições, perceberam a necessidade de levar a cabo este esforço inevitável e urgente, ao revelar o mundo que o mundo sonoro contém. A inevitabilidade e urgência são tão grandes que acabou por ser atraída para este esforço gente de outras fileiras artísticas e de outros credos culturais.

A arte de Luís Antero insere-se neste esforço. Nela está patente, para além das qualidades de sensibilidade e de técnica que se lhe reconhecem, uma preocupação não despicienda: cada som, cada combinação de sons, contêm no seu interior e constituem através deles, um documento com um valor hermenêutico inquestionável. O mundo sonoro de Luís Antero a que ele pertence e que ele orgulhosamente nos revela é o nosso. O que Luís Antero generosamente faz é facilitar-nos o caminho para que percebamos por que razão também é o nosso.

Volto a Fabre d'Olivet para revelar a sua definição de música, que se aplica bem ao trabalho de Luís Antero. Música, diz d'Olivet, é "o conhecimento da ordem de todas as coisas, a ciência das relações harmónicas do Universo, que se baseia em princípios imutáveis que nada pode alterar".

[ENG]

The soundscape of the noosphere

Composers cannot discard sounds from their sonic palette as much as painters cannot ignore all the available and perceivable colors. Choices made by the artist, of a particular sound or color, are only limited by the events of their times, their experiences, environment, and ultimately by the creative impulse that drives their work.

Any choice is therefore legitimate and unquestionable. The “effect of estrangement” that derives from some of these choices will become clear within the context of the creative act. On the other hand, any a priori rejection outside this context could mean artistic suicide.

In all definitions of music, even the most conservative, sound is a primary concern. Its musical qualities derive from the structure within which different sounds are combined.

Music is the “art of combining sounds to (…) speak to the feelings and to move the soul,” according to one dictionary of music. Varèse defined music as “organized sound”, and Xenakis considered it the “expression of human intelligence through sound”. All these definitions suggest some notion of structure. Structures, not the sounds themselves, define the character of music. I prefer the definition of music given by Fabre d’Olivet, the French 18th century thinker, poet and composer, which I will refer to later.

Science and art, music and noise, consonance and dissonance are complementing categories today. The interchangeability between art and science, the fine line that separates music from noise, the reversibility of consonance and dissonance observable today, turned these hitherto contrasting elements into new possible harmonies and therefore a discussion about their more or less legitimate usage pointless. We need to move further. Sound, the sounds and the structures that shape them can be and are more than simple elements to move the soul.

Many composers and sound artists understood this and went beyond these false oppositions, embracing new sonic universes and discovering new ways to structure them. Joining this inevitable and urgent effort to reveal the world that is contained in the world of sound, became the focus of today’s sound artists and composers. The inevitability and urgency of this effort seemed so

pressing that it even attracted people from outside the ranks of the sound arts and from other cultural practices.

The art of Luís Antero has roots on this original movement. In addition to the qualities of sensitivity and technical skills that can be readily recognized in his work, another important aspect becomes clear: each sound, each and every combination of sounds, contain within them and constitute in themselves a document with an unquestionable hermeneutic value. Through his work the particular sound heritage of Luís Antero, the one to which he admittedly belongs and that he proudly reveals to us, becomes universal. It becomes part of our own sound heritage as well. The goal that Luís Antero generously set out to produce is to devise a way for us to understand this.

Time to call upon Fabre d’Olivet’s definition of music, which applies well to the work of Luis Antero. Music, d’Olivet once wrote, is “the knowledge of the order of all things, the science of harmonic relationships of the Universe; it rests on immovable principles which nothing can alter.”

 

Artigo de Rui Eduardo Paes sobre o concerto inaugural do Jazz ao Centro 2014, incluído na secção ‘report’, da revista online jazz.pt

Luís Antero/João Pais Filipe

Em mais do que uma ocasião, a música apresentada por Luís Antero e João Pais Filipe fez lembrar os retratos musicais da realidade “tirados” por um dos mais fascinantes compositores do século XX, Luc Ferrari. Também ele fazia recolhas auditivas em meios humanamente habitados e utilizava nas suas peças as vozes e as palavras da gente que ia encontrando, numa espécie de dramaturgia espontânea. Luís Antero andou pelo centro histórico de Coimbra e gravou sons que podem estar em vias de desaparecimento, conforme se vão extinguindo determinados tipos de comércio tradicional e determinados misteres. Depois, convidou o baterista e percussionista João Pais Filipe para interagir com esses materiais e decidiu-se a acrescentar as suas próprias manipulações em guitarra preparada.

A não ser os registos sonoros da velha Coimbra, que têm carácter documental, tudo o resto que se ouviu no concerto de abertura do Jazz ao Centro, no Centro Cultural D. Dinis, foi realizado por meio de processos e técnicas de improvisação – algo que não encontramos em Ferrari. Aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “field recordings” não foi utilizado de forma inerte: Antero misturou e manipulou as suas gravações em tempo real no computador. Com um “set” de bateria e um conjunto de gongos rectangulares de sua própria construção, Filipe fez mais do que acrescentar música percussiva às imagens sónicas da cidade – transformou-as em música, aspectos de uma organização de elementos musicais. Curiosamente, o trabalho de Luís Antero com a guitarra disposta na horizontal, e “artilhada” com os mais diversos objectos, serviu para acentuar o carácter acidental das captações de base, como que a devolver estas à quase aleatoriedade do quotidiano. Ou seja, o concerto compôs e decompôs, o que foi deveras interessante, mesmo quando transpareceu alguma falta de coesão. (R.E.P.)

 

ENTREVISTA ANTENA 1 | Sandy Gageiro | 2014/01/23

Quando é que se interessou pelas gravações de campo e começou a realizá-las?

Interessei-me pelas gravações sonoras de campo em 2008 e imediatamente comecei a realizá-las. Este foi o ano do nascimento dos meus filhos Isaac e Samuel e também por causa deles resolvi começar este projecto de documentação e arquivo sonoro das paisagens sonoras da Beira Serra e parte do Parque Natural da Serra da Estrela, principalmente.

Quando é que começou a especializar-se na região em que vive?

Comecei a especializar-me nesta região, a Beira Serra, logo desde o início deste projecto. É aqui que eu resido e trabalho e portanto não faria sentido começar este projecto noutra zona do país. Tal como noutras zonas rurais, existe aqui muito património sonoro em vias de desaparecer e portanto torna-se pertinente a sua gravação, preservação e divulgação.

Quando começou na captação já pensava em usar esse material artisticamente?

No inicio, a minha principal tarefa e preocupação era a documentação sonora, o seu arquivo, mas também a sua divulgação pública através da internet, desígnio que mantenho desde então. É importante que os sons recolhidos sejam partilhados com o público. Os sons recolhidos por mim têm um potencial artístico natural. Pode-se trabalhar todo o som de forma artística. Percebi isto mesmo pouco tempo depois de iniciar o meu projecto de gravações sonoras de campo e comecei então a desenvolver trabalhos sonoros conceptuais com os muitos sons gravados.

É metódico no que faz? Planifica muito o trabalho que realiza?

Depende muito do projecto concreto em que esteja a trabalhar, mas de um modo geral, sim. A planificação e o método são importantes num trabalho desta natureza, se bem que tento tirar o máximo prazer daquilo que faço e não tanto o encarar do projecto como uma obrigação, até porque o realizo somente nos meus tempos livres.

No que está a trabalhar actualmente?

Actualmente estou a trabalhar no Sons do Arco Ribeirinho Sul, no Barreiro, a convite da Out.Ra Ass. Cultural, um projecto de documentação e arquivo sonoro da cidade, a encaminhar-se para a sua conclusão, no próximo mês de março; desenvolvo igualmente dois trabalhos em contexto rural: um dedicado a gravações sonoras das rodas de água do vale do Rio Alva e outro dedicado à arte sineira, nomeadamente na Torre da Paz, na aldeia do xisto de Benfeita, concelho de Arganil. Brevemente, iniciarei, a convite do Jazz ao Centro, o Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra.

Considera importante as recomendações do PS ao Governo para alargar as competências à tutela do Arquivo Sonoro Nacional  e que garanta a existência e o funcionamento de um espaço comum para armazenar e preservar esse património?

Sim, concordo, embora o que acho realmente fundamental seja a criação do próprio Arquivo Sonoro Nacional, que ainda não existe e que é de capital importância para a preservação e divulgação do nosso património imaterial. Tem de haver um real compromisso com a criação do arquivo. Não estamos a falar da construção de mais um edifício, antes de um instrumento de capital importância cultural, onde as várias colecções privadas e o trabalho a ser desenvolvido pela tutela do arquivo possam conviver. E obviamente também com uma atenção especial aos sons da nossa paisagem.

 

Entrevista de Leonor Santos, em 2013, enquanto estudante de Jornalismo, no âmbito de um trabalho acdémico sobre 'Géneros Jornaliísticos', neste caso a 'Grande Entrevista'.

“Muitas vezes paramos para ver, raramente o fazemos para ouvir”

A Luís Antero basta uma mochila e um gravador. Tem 41 anos. Trabalha numa Câmara Municipal e podia ser apenas mais um funcionário público, de mal com as quatro paredes a que está confinado diariamente. Mas não é. Luís é artista sonoro. Colecciona sons do mundo rural, sobretudo a Região da Beira Serra e Serra da Estrela há já 8 anos. Uma colecção para mais tarde recordar e que não pára de crescer. Acredita que paramos muitas vezes para olhar, mas raramente para ouvir. Para ele, o tempo vai encarregar-se de dissolver sons, que daqui a 10 ou 20 anos, já nem vamos lembrar-nos que existem. É mais do que um projecto mecânico, mas um projecto de vida. É um homem das artes e da cultura. Esta paixão pelo som, que o leva a criar paisagens e marcos sonoros desencadeou vários projectos, que o apanharam de surpresa. Faz Concertos Para Olhos Vendados e foi convidado a documentar o património sonoro da cidade de Coimbra. Apenas alguns exemplos dos seus projectos. A sua proximidade com a terra da Beira Serra que o viu crescer e onde passou a sua infância, impôs um tratamento mais descontraído. Duas cadeiras, uma mesa e uma lareira acesa. O cenário ideal para uma conversa sobre a memória que os lugares e as pessoas guardam.

Fernando Pessoa disse: “ Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.” O som é uma paixão porquê?

O som no meu caso passou a ser uma paixão. Antes não era… e não era pelo facto de o som ser ainda um elemento muito negligenciado na nossa paisagem... Passou a ser uma paixão, a partir do momento em que comecei a trabalhar nas recolhas, justamente porque te permite ver, neste caso ouvir, o mundo que te rodeia de uma forma diferente. Permite-te estar mais atento aos pormenores e só por isso funciona como elemento muito atractivo e é uma espécie de mundo fantástico. Isso apaixona.

A Natureza deu-nos duas orelhas e uma boca. Falamos demais e ouvimos de menos?

(risos) Sim, de facto falamos muito e ouvimos pouco. Há até uma citação de um filósofo grego, Epíteto, acerca disso mesmo: “Deus deu ao homem dois ouvidos, mas apenas uma boca, para que ele ouça duas vezes mais do que fala."

Decidiste gravar sons que daqui a 10 ou 20 anos não se vão encontrar na natureza. Como nasceu esta ideia?

Este projecto nasceu pela conjugação de três factores. O primeiro, a minha paixão pela música. Ouço música desde sempre e por volta de 2008 encontrei um trabalho de um artista que trabalha na BBC, o Chris Watson, e ouvi um trabalho dele chamado Weather Report, que ele fez com gravações desde África até à Antárctida. Ouvi aquilo e fez-se um clique muito forte. Fui à procura de mais trabalhos sobre o assunto e encontrei um filme de uma realizadora portuguesa, Raquel Castro, chamado Sound Walkers, justamente acerca do papel do som no nosso quotidiano, não só para pessoas que precisam do som para viver, no caso dos invisuais, mas o som enquanto matéria de pesquisa. Para além disso e não menos importante, nesse ano nasceram os meus filhos e isso levou-me logo a pensar que talvez fosse melhor pôr mãos à obra e começar a documentar esta realidade sonora. Também por causa deles, por causa dessa razão. Daqui a alguns anos eles já não vão conseguir ouvir na natureza, e aqui também incluo o homem, esse tipo de sons. Pensemos na história de vida da última geração de pastores, por exemplo, que quando falecerem levam com eles toda esta memória… E isso é uma coisa que não se consegue ir buscar. Ou se recolheu, ou então é matéria que vai desaparecer.

Disseste em entrevista à RTP que um dos objectivos é preservar a memória fonográfica do mundo rural. A memória das pessoas?

A memória das pessoas e a memória dos lugares.

E é isso que te fascina?

Sim. Vou dar-te um exemplo concreto: há locais onde ainda é possível ouvir todos os dias os moinhos de água em funcionamento. Há ainda quem cuide deles e viva com a farinha que produzem. Mas a maior parte dos moinhos desta zona já não está em funcionamento. Existem enquanto arquitectura abandonada, mas essa realidade sonora já não existe.

Conseguimos ainda gravar os circuitos de água, realidade que ainda está intacta, mas a sua mecânica já não a conseguimos ouvir. E isso faz parte da memória sonora daquele lugar, que antes era uma e que agora é outra.

Gravas, sobretudo, a região da Beira Serra e Serra da Estrela. Porque é nesta região que se vão perder mais sons?

Não. Essa não é a razão. Gravo porque vivo aqui e por isso é essa a minha base de trabalho. Porque estou aqui todos os dias. Há pessoas que preferem explorar sítios mais exóticos, não é o meu caso. Prefiro gravar os sons do território onde vivo, já que também é uma questão de identidade relacionada com o sentido de pertença a um espaço geográfico.

Falas da pertença dos sons de chocalhos, riachos, moinhos, utensílios agrícolas, antigas profissões. Sons de um Portugal esquecido?

Para nós este não é um Portugal esquecido, porque estamos cá. O que aqui é interessante, e já passei pela experiência de tocar em Lisboa, as pessoas ficam entusiasmadas e até sensibilizadas, porque em Lisboa, à parte daqueles que são realmente alfacinhas, os outros não são de lá. Migraram todos de norte a sul do país. O som mexe com a memória das pessoas. O som de uma aldeia para uma pessoa de 40, 50 ou 60 anos que vive em Lisboa, com certeza a vai fazer recuar até à infância, à juventude, ao tempo em que vivia fora de Lisboa. É uma realidade sonora que não existe simplesmente, naqueles locais.

A propósito desta questão, materializaste o projecto trazendo-o para cima do palco. Falo do Concerto para Olhos vendados. Como surgiu a ideia?

Dei comigo a pensar em como poderia levar o projecto para cima do palco e torná-lo atraente. É um concerto para ouvir. (risos) Aliás, talvez seja mesmo dos únicos concertos em que a única coisa que podes fazer é mesmo ouvir. E lembrei-me de vendar as pessoas, privá-las de um dos seus sentidos, porque assim tendem a concentrar-se mais. Até enquanto experiência sensorial acho interessante. Estares num concerto com os olhos vendados, só a escutar, tinha tudo a ver com este projecto e permite igualmente que as pessoas possam viajar pela sua memória e ligações que esta produz…

Qual a reacção?

Há de tudo um pouco. Há pessoas que durante o concerto fazem o exercício de identificar os sons, outras viajam pela memória que elas têm dos lugares e pela memória que durante aquela hora os sons lhes produzem… E depois há pessoas interessadas na parte técnica, querem perceber como misturo os sons, como eles se encadeiam, etc.. Por isso é que depois do concerto crio um momento de tertúlia com o público.

Sei que concerto em Coimbra esgotou.

Sim, no Teatrão. Foi uma surpresa extraordinária. Estava cheio e havia muitas pessoas com idade superior a 40 anos, pessoas com uma vivência rural, que foram para Coimbra mas tinham ligações às aldeias do distrito. Houve até em alguns casos, algumas lágrimas.

Saudosismo?

Sim, de melancolia. É engraçado falar disto contigo, porque umas das gravações que utilizo sempre é justamente o som do teu avô a falar e agora sou eu que me emociono. Falar sobre esses tempos. Porque para essas pessoas seria triste passar uma vida inteira a trabalhar no campo e ver agora tudo abandonado. Se isso é importante em termos de memória, de recolha etnográfica, é também, em muitos dos casos, uma forma das pessoas se abrirem e dizerem o que sentem.

Adaptas o concerto a cada região?

Geralmente sim. Vou sempre mais cedo e gravo sons daquele local. Quando tenho a possibilidade de fazer uma oficina de gravações sonoras de campo, depois uso também esse resultado no concerto. Mas o que importa é que as gravações nos locais têm que ver com a inclusão de uma certa identidade local. Lembro-me que em Coimbra utilizei uma gravação de uma loja que está sempre a passar fado, junto ao Arco de Almedina. Introduzi o fado porque é um dos marcos sonoros da cidade. Isso faz com que o público se sinta em casa, se sinta confortável. Muitos dos sons têm um carácter quase experimental, já que a pessoa tenta perceber se “isto é aquilo”, mas não tem a certeza. É também o único local onde posso fazer uma manipulação dos sons para ajudar a desenvolver a narrativa do concerto. Porque a minha recolha é pura e dura. Construo peças a partir daquilo que gravo.

Trabalhas na administração local. As quatro paredes que envolvem o teu local de trabalho são redutoras?

Em primeiro lugar, quem me dera fazer disto a minha vida, mas não posso, pelo menos ainda. É engraçado perguntares isso, porque nem penso muito na questão. Neste momento por força das alterações destas últimas eleições eu e uma colega mudámo-nos para um gabinete, mesmo ao lado de um grande servidor informático. E esse servidor quando eu estava no gabinete ao lado, de vez em quando incomodava. A verdade é que hoje em dia trabalho a cinquenta centímetros dele e já nem o sinto.

Aquele som desapareceu?

Sim. Nem o sinto. A resposta é simples, quando estou a trabalhar não estou neste universo.

Este universo na verdade não é um escape.

Ele em certa medida ainda é um hobbie porque o faço nos tempos livres, se bem que cada vez mais sou convidado para projectos de arquivo e documentação sonora…

Ainda em relação à tua profissão. Os governantes sabem ouvir quem trabalha no sector público?

Eu sou funcionário da administração local e de facto há uma grande diferença entre quem trabalha aqui e quem trabalha nos mecanismos puros e duros estatais. Porque aqui te ouvem muito mais facilmente, pelo menos no meu caso.

Falo no plano geral.

Pelo estado actual das coisas e cortes que todos temos, a minha carreira está congelada desde 2005. Perspectivas de ganhar mais não são nenhumas. O funcionário público tem sido uma espécie de culpado de tudo aquilo de errado que se passa no estado. Eu já trabalhei na maior câmara do país, em Lisboa, e posso dizer que aqui, na câmara de Oliveira do Hospital se trabalha muito melhor. Há funcionários que mesmo não ganhando um tostão fazem bem o seu trabalho. No geral sim, os funcionários são pouco escutados.

Se pudesse que sons lhes dedicavas, a esses políticos?

Se pudesse dedicava-lhes o som que todos os dias é produzido na SOMIT, uma empresa serralheira de madeiras, para não os poder ouvir. E para eles não se ouvirem, apanharem um esgotamento e de uma vez por todas desaparecerem daqui (risos).

Disponibilizas os conteúdos gratuitamente na Internet. Acreditas que contribuis para uma espécie de serviço público?

Faço isso partindo de uma premissa simples. Os sons que eu recolho não me pertencem, isto é, os sons pertencem-me somente em termos artísticos, mas eles existem na natureza e são de todos, como tal não faria sentido disponibilizar para venda.

É um trabalho de pesquisa permanente.

Sim. O meu trabalho pode dividir-se em duas partes: a da documentação e arquivo sonoro, sendo esse trabalho realizado por tipologia sonora, ie, o rio, os chocalhos, a tradição oral, a arte sineira… Uma das últimas recolhas que fiz foi aquilo que eu chamo ‘o som da morte’, produzido pelo sino, com a ajuda do sineiro. Era um som que me faltava. Depois há uma outra parte, que é um trabalho mais criativo. Trabalhos que depois são editados online. O último trabalho que fiz chama-se o Rio, Vol. 2. No 1º volume, o enfâse foi dado ao elemento água e este 2º volume tem mais a ver com a questão da memória e identidade. Por exemplo, a questão do sino, que toca quando alguém morre. Uma das bases do trabalho foi precisamente uma recolha que fiz com um senhor que era guarda-rios. Essa profissão já não existe, no entanto, ele tem muitas e boas memórias da profissão e dos muitos anos que a exerceu, porém, aquela profissão, em termos simbólicos, remete-nos para o toque do sino quando alguém morre, tem a ver com esta questão do desaparecimento das coisas.

Uma construção de narrativas?

Sim. Os meus primeiros trabalhos chamam-se justamente Sound Narratives. É interessante como em Portugal existe um crescente interesse por estas temáticas. E não nos podemos esquecer que em Portugal foi feita uma grande recolha nos anos 60, muita gravação ao nível do cancioneiro.

Falas de Michel Giacometti?

Sim. Um homem que veio para Portugal e fez aqui a sua vida toda a recolher cancioneiro popular de norte a sul do país e conseguiu depois com a RTP ter uma série que se chamou o Povo que Canta, que já não é da minha geração. Ao nível daquilo que chamamos paisagens sonoras há menos recolhas, nunca houve muito esta prática, a gravação da natureza, ou das cidades, ou aldeias.

Sei que foste convidado não só recolher, mas a criar paisagens sonoras em Coimbra. Que projecto é este?

A base do projecto é a criação de um arquivo sonoro do centro histórico de Coimbra. A Alta, Baixa e Rua da Sofia, que foram candidatas a Património Mundial da Humanidade. Essas zonas têm hoje determinados marcos sonoros. Mas eu pergunto: será que vão ter sempre esses sons? A Rua da Sofia vai ser uma rua intervencionada no âmbito do Património Mundial da Humanidade, em fachadas de edifícios, por exemplo. O que significa que os sons presentes hoje, amanhã poderão ser outros e haver realmente sons que desapareçam e outros que se transformem. Daí a importância em recolher o que existe agora, para perceber o que vai mudar. São projectos culturais interessantes…

Apelidam-te coleccionador de sons. Porquê?

Isso é um trocadilho. Eu tive um programa na Rádio Zero e Rádio Universidade de Coimbra que se intitulava precisamente O Coleccionador de Sons. Teve a ver com um artigo que li de um norueguês, ele recolhia sons para coleccionar e foi daí que veio o nome do programa de rádio. Não me revejo totalmente neste título, porque eu não colecciono, na medida em que não os guardo para mim.

O que é que ainda te falta gravar?

Eu gostava de encontrar um faquir. Ao invés de engolir facas, colocava-lhe o meu hidrofone, que utilizo para gravar sons debaixo de água, para gravar o som do nosso corpo a funcionar, do nosso coração. Seria um som único. Uma das coisas que gravei muito foram os sons da minha filha, os registos que fazem na maternidade…

Gravas os sons dos teus filhos?

Sim, quando adormecem e estão a palrar. Quando eles não estão à espera. Gravo mais do que filmo, talvez por causa desta minha paixão pelo som.

A imagem vale mais do que mil palavras ou é som?

A imagem é muito forte. Pensemos nos meios de comunicação social. É muito mais forte se falares no jornal ou televisão, mas na rádio é o som que impera.

Que som escolhes para te definir?

A água do rio, porque é límpida e corre….

 

ESTUDO DE CASO | CASE STUDY

SOUNDS OF THE RIVER ALVOCO

PROMORIVER 2014 | RIVERS, ART AND CULTURE

 


LUÍS ANTERO AND THE SONIC IDENTITY OF BEIRA SERRA
by Raquel Castro

Luís Antero is a field recordist based on the central region of Portugal, a rural area marked by a unique cultural, natural and ethnographical environment. Luís lives in a deep connection to his surroundings. His respect for nature and the sonic heritage moves him to keep recording and recording the enormous acoustic potential of this beautiful part of the country.
Luís is moved by the goal of collecting the immaterial patrimony, an idea that grew up on him after becoming a father. It was the sense of identity and belonging and probably the idea of roots that he was then starting to create around him, that made him trace the goal to document the land, the mountains and the people he already knew so well.

(full article/artigo completo)

 

INTERVIEW

By Tobias Fischer (2011)

(tokafi - http://www.tokafi.com/15questions/interview-luis-antero/)


Originalmente, esta entrevista saiu na revista alemã Beat Magazine, sendo que Tobias Fischer a aproveitou também para a série "15 questions", da plataforma Tokafi. Resolvi colocar também as respostas em português, para aqueles que não dominam a língua inglesa. Obviamente, depois de 2011, muita coisa mudou em termos artísticos, mas o essencial do meu pensamento matém-se inalterado.


Globalism is often an illusion, with most of the traveling done on laptops. Within the field recording scene, on the other hand, there is a definite trend towards distant places – street scenes from Mumbai, ice-plate tectonics on Antarctica, tempel gardens in Beijing. Within this community, the work of Luís Antero must seem extraordinary in its territorial restraint. For the past three years, Antero has roamed and recorded nothing but the Beira Serra – an area he was born in and which has remained his home for his entire life. Within this remarkably restricted territory, however, he has found inspiration in the most diverse corners and objects: Water mills and villages, the stories of the elders and the chant of children, a stream of memories running through a land torn between tradition and modernity. He has documented this astounding richness on a quickly proliferating amount of releases – twenty-one in total since 2008 and counting – and the reason why his oeuvre has lost none of its allure is precisely that the artist is not an intruder - or, as Schrödinger would have put it, a distraction to the experiment - but a natural part of the environment here: Antero intimately knows almost all of the people and places he is taping and has their full support in preserving their stories for posterity. The latter is turning more and more into a guiding theme of his documentary work, as the notion of oral tradition and folklore, as defining the relationship between a region and its inhabitants, is turning into the pivotal point of a work dealing exclusively with „pure field recordings“. Fascinatingly, this most local music imaginable has exercised a remarkably international pull: Today, pieces like his Watermill EP or the six episodes of his sound narratives – hypnotic and threedimensional radio plays all – are released on labels from China to Ireland. That, of course, is another aspect of globalism: It makes the most local phenomena seem as though they were right around the corner.

You particularly stress „oral traditions“ and collective sonic memory.

All this goes back to my childhood, to tales once told by the fire in a rural environment. Later, as an adult, I came to experience them with my grandfather and the elders in the village of Alvoco das Várzeas. This village, in particular, is full of stories about witches and werewolves and has thankfully never lost this knowledge. But it isn't only stories that come from here: The roots of popular music and their connection to the traditions and customs mark and define the identity of a people. This is why I use the term "collective memory of sound“, because it defines a set of sounds and knowledge passed down from generation to another.

Interesso-me pela tradição oral desde criança. Tudo isto remonta à infância, com as histórias que eram contadas à lareira, num ambiente rural. Mais tarde, já adulto, voltei a experienciar isso com o meu avô e pessoas mais velhas da aldeia de Alvoco das Várzeas. Esta aldeia, particularmente, é pródiga em histórias sobre bruxas e lobisomens e sempre existiu a tendência, felizmente, para a transmissão deste saber oral. Mas não é só de histórias que aqui se trata. A música de raiz popular e a sua ligação às tradições, usos e costumes marcam e definem a identidade de um povo. É neste aspecto que eu emprego o termo „memória colectiva sonora“, como um conjunto de sons e saberes transmitidos de geração em geração.

The field recordings scene frequently has a tendency towards exoticism. You, however, are particularly interested in what immediately surrounds you. How come?

Once I start travelling, you can be sure that I'll eventually also succumb to this trend (laughs). Speaking seriously, however, when I listen to the area I'm living in, I feel alive and realise its full acoustic potential.

If my work leads to getting more people to discover their own surrounding and to really listen to it, then I'm contributing, even in a utopian way, to their enrichment. There is still plenty to explore.

Se viajasse por esse mundo fora, podes ter a certeza que também caíria nessa tendência, ahahahah. Agora a sério. Quando escuto esta zona, sinto-a viva e percebo o seu potencial acústico. Se com o meu trabalho conseguir que mais pessoas descubram esta zona, que a oiçam, que a vivam ou que a habitem, estou a contribuir, mesmo que utopicamente, para o seu enriquecimento. O legado sonoro destas zonas é imenso e há ainda muita coisa para explorar. Em termos de tradiçãooral, por exemplo, o património é riquissimo. Pessoalmente, neste campo, apenas conseguirei fazer uma pequena parte, mas espero, sinceramente, que outros se interessem. Aos poucos, vou promovendo alguns workshops de gravações sonoras de campo, exactamente com esse objectivo.

Tell me about what inspired you to start your work.

The central region of Portugal, namely in the Beira Serra, where I live, is a rural area. It is marked by social and economic difficulties similar to many inland areas, but it also has a cultural, natural, environmental and a unique ethnography of its own. It's a great place to live, you're constantly in touch with nature and develop a feeling of respect for her. Despite this, there are also areas with strong desertification, where people are leaving for the big cities or for abroad, leaving villages depopulated, with negative repercussions for the architectural heritage. Already, there are only few water mills left here, for example. Most importantly, however, the region is very rich in intangible heritage sound and has an enormous acoustic potential, since it is crossed by the parks of Serra da Estrela and Serra do Açor. Many of these expressions, however, are now disappearing. I always felt I belonged to this land, these mountains and these people, but never had looked at this area from the point of view of sound. When my two sons, Isaac and Samuel, were born, I felt, also because of them, that I had to start documenting this landscape. It is obviously destined to forever remain an unfinished job, a constant work in progress.
Then, in artistic terms, there was a meeting with two key works, which definitely influenced me for this project of sound recordings in the field: The movie Soundwalkers by Raquel Castro and Chris Watson's Weather Report album. I must also emphasize the careful help of Rafael Toral, whose valuable suggestions for buying audio recorders and important clues to the universe of field recording were very important in this whole initiation process.

A zona centro de Portugal, nomeadamente na Beira Serra, onde vivo, é riquissima em património imaterial sonoro. Muitas destas manifestações estão a desaparecer ou em vias de isso acontecer. Sempre senti que pertencia a esta terra, a estas serras e a estas gentes, mas nunca tinha olhado para esta zona sob o ponto de vista sonoro. Quando os meus filhos, Isaac e Samuel, nasceram, senti que, também por causa deles, tinha que começar a documentar esta paisagem. É, obviamente, um trabalho sempre inacabado, um work in progress constante.
Depois, em termos artisticos, houve o encontro com duas obras fundamentais, que me influenciaram definitivamente para este projecto de gravações sonoras de campo: o filme Soundwalkers, de Raquel Castro e o album Weather Report, de Chris Watson. Devo também salientar que a ajuda atenta do Rafael Toral, com sugestões para compra de gravadores e dicas importantes sobre o universo das gravações sonoras de campo, foi muito importante em todo este processo iniciático.



How did you go from early experiments to the proficient acoustic panoramas of your current releases?

I started developing my sound collection in the Fall of 2008, on the outskirts of Oliveira do Hospital, the small town where I live. As I had no field recording experience whatsoever, I was experimenting with various acoustic scenarios and themes, from collections of oral tradition, which I'd recorded in local greenlands or in the pine forests surrounding the city. The excitement was huge and I recorded almost everything I was offered (laughs). Of course, many of these recordings did not pay off, either because they were poorly scored or lacked the sociological angle they were intended to convey. But I was taking the first steps into this fantastic universe, which was good in itself.
During these early days, I was getting support from friends, family and other sound artists and this gave me confidence to continue exploring this universe, always from the point of view of being self-taught. Even today, I operate according to this view.
The release of my EP of water recordings on the Bypass Label constituted an important milestone in this regard.

Comecei a desenvolver as minhas recolhas sonoras no outono de 2008, nos arredores de Oliveira do Hospital, a pequena cidade onde vivo. Como não tinha qualquer experiência em gravações sonoras de campo, fui experimentando vários cenários acústicos e temas muito variados, desde recolha de tradição oral, a gravações em locais de pastoreio ou nos pinhais que circundam a cidade. A excitação era enorme e gravava quase tudo o que me aparecia pela frente, ahahah. Claro que muitas dessas gravações não prestavam, ou porque estavam mal gravadas ou porque não tinham o interesse sociológico que pretendia. Mas estava a dar os primeiros passos neste universo fantástico e isso era bom.
Durante estes primeiros tempos, fui recebendo o apoio de amigos, familia ou artistas sonoros e isso deu-me confiança para continuar, para explorar este universo, sempre do ponto de vista autodidacta. Ainda hoje opero segundo esse ponto de vista. A edição do EP Water Recordings,na Bypass Label constituiu, neste aspecto, um marco importante.


What kind of equipment are you using for your field recordings?

Ever since 2008, I've been using the same Zoom H4. Never had another (laughs). Last year, I also got myself a homemade hydrophone. I always go with the Zoom H4, it joins me day and night. I've set myself a goal: Collecting the immaterial sound of the Beira Serra region. This is my only plan – but it's a massive plan (laughs). Whenever I go out to record, this is what I have in mind. I can spend an entire day in one place, documenting its soundscape by wandering around various sites, recording its unique sound properties as well as nearby sound sources, which allows me to produce narratives, using results from  different places. I will, for example, walk around the various villages in this area and discover that there are points of contact, such as the noise level, which can be very interesting. For example, the sonic textures of the agricultural work or the water that flows abundantly in these parts, are a constant. On the other hand, I appreciate a conceptual angle and working with a certain theme in mind. The Water Recordings series is a good example, but also the Big Wheel EP, Watermill and Amphibia Symphony or the latest Alvoco Soundscape and Music Factory. Designing the artwork for these releases is always a big issue and in itself constitutes a very exciting artistic challenge.

Desde 2008 que uso o mesmo Zoom H4. Nunca tive outro, ahahah. No ano passado adquiri também um hidrofone caseiro. Sim, ando sempre com o Zoom H4. Acompanha-me dia e noite. Defini para mim mesmo uma meta: a recolha do património imaterial sonoro da zona da Beira Serra. Este é o meu único plano, um plano gigante, ahahah. Quando saio para gravar é isto que tenho em mente. Posso passar um dia ou parte dele num só local, documentando a sua paisagem sonora, como deambular por vários sitios, gravando identidades sonoras únicas, mas ao mesmo tempo complementares, o que me permite a produção de narrativas sonoras, usando as recolhas de vários locais. Quando percorro as várias aldeias desta zona, por exemplo, apercebo-me que existem pontos de contacto, ao nível sonoro, muito interessantes. Por exemplo, as texturas sonoras do trabalho agrícola ou a água que abundantemente corre por estas paragens, são uma constante.
Por outro lado, aprecio a ideia de conceito e gosto de trabalhar sob determinado tema, recolhendo material sonoro para esse fim. A série Water Recordings pode ser um bom exemplo, mas também os EP Big Wheel, Watermill e Sinfonia Amphibia ou os mais recentes Alvoco Soundscape e Factory Music. Existe sempre um tema na base da concepção destes trabalhos, o que, só por si, constitui um desafio artístico deveras estimulante.

 
You've emphasised the importance of „pure field recordings“. What exactly does the term mean to you?

That the work conforms to the scenery and the identity of the place where the sound was recorded. There is no manipulation or treatment other than normalising tracks. Nor could there be, in fact, since my technical skills at audio production are fairly rudimentary. I try to compensate for this with my sensitivity - either in auditory terms or through my belonging to this area. I consider this a very important factor. I've always lived here, I know the people, their lives and their ways and this is reflected in my work. For me it's simple and natural to grab my recorder, go anywhere I want to document and engage in conversations with people, inviting them to add their contribution. The people are the soul of this area and this is what my work is intended to reflect.

A partir da edição de Sound Narratives, Vol.1, em Janeiro de 2009, passei a usar a inscrição „this soundwork contains pure field recordings“. O que pretendia dizer na altura é exactamente o mesmo que pretendo dizer agora, ou seja, que aquele trabalho respeita o cenário e a identidade sonora do local onde foi registado. Não há qualquer manipulação ou tratamento sonoro daquela paisagem (somente o „normalize“ das faixas). Nem podia haver, aliás, uma vez que os meus conhecimentos técnicos ao nível da produção áudio são bastante rudimentares. Depois, se a minha preocupação é dar aos ouvintes os sons tal qual se apresentam nos seus locais de origem, não faria sentido modificá-los. Deixo isso para o meu projecto Out Level.
De qualquer modo, tento compensar os poucos conhecimentos técnicos que possuo, com a minha sensibilidade, quer auditiva, quer de pertença a esta zona.
Considero este um factor muito importante neste projecto de gravações sonoras de campo. Conheço esta zona, sempre aqui vivi, conheço as pessoas, as suas vidas, os seus modos e isso reflecte-se no meu trabalho. Para mim é simples e natural chegar de gravador em punho a qualquer lugar que queira documentar e encetar conversas com as pessoas, convidando-as a darem o seu contributo para aquele trabalho. As pessoas, a par da natureza, são a alma desta zona e é isso que o meutrabalho pretende espelhar.


When speaking to your colleague Mark Peter Wright recently, he mentioned he was particularly interested in capturing the „spirit of a particular place“. Is that something you can relate to, then?

Yes, I agree with Mark. In fact, to collect sounds, we have to go on the road. It can be for sites that I do not know at all - or to others I may already know, but which have by now gained even greater acoustic importance. I am particularly interested in endangered places, where the subject of my exploration could, for example, consist of a depopulated village or a water mill. I think that in the latter case, I managed to capture the spirit that Mark spoke about on my EP Watermill, released on the Bypass Label in 2009. In the latest Music Factory, published on the Wandering Ear netlabel, I can say that it is also present. In fact, these sites have a very special musical quality and sound, which deserve careful attention.

Sim, concordo com o Mark. De facto, para recolhermos sons, temos que partir em viagem. Pode ser para locais que não conhecemos de todo ou para outros que, já conhecendo, têm agora uma importância acústica ainda maior. Estou particularmente interessado em locais onde o objecto de recolha possa estar em vias de extinção, como uma aldeia despovoada ou um moinho de água. Penso que, neste último caso, consegui captar esse espírito de que fala o Mark no EP Watermill, editado pela Bypass Label em 2009. No mais recente Factory Music, editado pela netlabel Wandering Ear, posso afirmar que esse espírito também está presente. De facto, estes locais têm uma identidade sonora/acústica muito particular e isso merece uma atenção cuidada.


He also told me about the moments when, as a field recorder, you become completely one with your environment.

What Mark tells is fascinating, but I particularly emphasise the "spirit of a place" and often look for the inspiration needed to perform my job there. I like to go with the imagery of a particular place and seek to reconcile this with the sound.

I will shoot a lot of pictures when I'm in the process of documenting sound, not only because I like photography, but also because it helps me in the writing process.

It bring home the imagery of a place, which in spiritual terms, helps me a lot. I like to think it is important to the feeling of belonging to the place you want to document.

What does that term folklore still mean in the new Millennium?

What I try to capture with my field recordings is the identity of a place and its people. In this sense, the term folklore is connected to the oral tradition and its dissemination. I feel that both my generation and younger generations, with few exceptions, are not interested in oral tradition. I am trying to reverse this situation with this collection of life stories, the litany of original folk songs and so forth. The Alvoco Soundscape EP, recently released by Portuguese netlabel Mimi Records, reflects this reality, using the example of a village from the Alvoco floodplain. I believe in the value of transmission by tradition and that we can contribute to it as individuals. From an artistic point of view,  tradition is like a huge file and a stimulating point of departure for exploration and work. One can use it to build entirely new things.

O que tento captar com as minhas gravações sonoras de campo é a identidade de um local e se possível das suas gentes. Neste sentido, o termo folclore está ligado à tradição oral e à sua disseminação ou não. Sinto que a minha geração e as gerações mais novas, salvo algumas excepções, não se interessam pela tradição oral. Eu tento inverter essa situação com a recolha de histórias de vida, de ladainhas, de cancioneiro popular original, etc. O EP Alvoco Soundscape, recentemente editado pela netlabel portuguesa Mimi Records, espelha essa realidade, a partir do exemplo de uma aldeia, a de Alvoco das Várzeas. Acredito no valor da transmissão pela tradição e que isso nos pode formar como individuos. Sob o ponto de vista artistico, a tradição constitui igualmente um enorme e estimulante arquivo de exploração e trabalho. Podem-se fazer coisas totalmente novas a partir das suas bases.

 
Is there a political aspect to what you do?

Sometimes I feel I am exercising a kind of public service. Someone has to do it. Collective memory is important and must not be erased. As one shepherd told me, it is seminal to capture it in sound. Most shepherds, for example, have absolutely unique life stories. A life so difficult, full of work, sometimes with harrowing moments, should be recorded for future generations, as an example for those that succeed us. There are biographies on famous political and cultural personalities, so why not do it with anonymous people, too ... And these mountains are full of them. I wish I had more time for my documentation.

Por vezes sinto que estou a exercer uma espécie de serviço público com esta documentação. Alguém tem que a fazer. A memória colectiva é importante e não se pode apagar. Como me disse um pastor, é importante que a memória fique registada. A maior parte dos pastores, por exemplo, tem histórias de vida absolutamente únicas. Uma vida assim, dificil, cheia de trabalho, por vezes com momentos angustiantes, deveria ficar registada para memória futura. Uma espécie de exemplo para outras gerações. Faz-se isso com personalidades politicas e culturais, porque não fazê-lo também com pessoas anónimas... e estas serras estão cheias delas. Gostava de ter mais tempo para essa documentação.


 

 

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