Luís Antero | Field Recordings


 


XISTO SONORO - PAISAGENS SONORAS DA REDE DAS ALDEIAS DO XISTO

Tudo começou em 2009, quando visitei, pela primeira vez, a Aldeia do Xisto de Aigra Velha (Góis) e conheci André Claro, com quem realizei as primeiras gravações que anos mais tarde, sem o saber ainda, haviam de figurar no trabalho sonoro que aqui faço referência e que está disponível no site oficial da ADXTUR - Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto. Para cada aldeia existe uma página e a sua correspondente paisagem sonora, a partir do player Soundcloud disponível

O André, infelizmente, já não está entre nós, mas a sua voz continua a ecoar pelos vales verdejantes da Serra da Lousã, tal qual os veados na sua brama sazonal. A ecoar também nos meus ouvidos…

)))

As aldeias que compõem a Rede das Aldeias do Xisto são um prodígio, um tesouro feito descoberta. Visitá-las e percorrê-las, na intimidade das suas ruas, é visitar um mundo rural antigo, ainda com as marcas de um tempo longínquo bem presente.

As Aldeias do Xisto, 27 na totalidade, para além das paisagens que incorporam, detêm outras paisagens que igualmente as marcam e identificam: as paisagens e marcos sonoros. 

O trabalho artístico que aqui se apresenta é realizado com base em algumas dessas paisagens e marcos sonoros, recorrendo, para o efeito, a gravações sonoras de campo. 

Percorreram-se as aldeias em busca das suas sonoridades características, dos seus marcos sonoros, dos sons que as definem e as distinguem de outras aldeias no contexto rural do Portugal contemporâneo. Por outro lado, através destas paisagens sonoras, podemos também perceber o que estas aldeias têm em comum com outras situadas no mesmo território. 

O bater das horas do relógio da torre da igreja, por exemplo, parece-nos ser uma sonoridade comum a muitas aldeias do país, mas as 1620 badaladas ininterruptas (aproximadamente uma hora e vinte minutos) do sino da Torre da Paz, na Aldeia do Xisto da Benfeita (Arganil), no dia 7 de maio de cada ano, parece-nos, neste âmbito, algo único e original. 

É esta originalidade, esta autenticidade, esta ancestralidade também, que conferem às Aldeias do Xisto um mosaico sonoro único do nosso Portugal rural. Percorrer acusticamente estas aldeias é, na maior parte das vezes, encontrar ainda os sons antigos que as povoavam e com eles a história dos lugares e das pessoas que deles faziam parte. Até aqueles que emigraram, a elas voltaram mais tarde; até aqueles que, por motivos de saúde, tiveram que ir viver para a vila mais próxima, a elas regressam todos os fins-de-semana, para a sementeira, para a companhia dos animais, para a saudade da ribeira onde outrora lavavam a roupa, para o ‘silêncio’ apaziguador destes locais onde um dia a terra e a pedra casaram na perfeição.

Contudo, noutras vezes, não muitas, felizmente, somos confrontados com o peso bruto do betão, que por cima de uma ponte filipina não nos deixa ouvir com a clareza necessária o murmurar sincero das águas do rio.

A água é o elemento acústico de ligação em quase toda a extensão da rede das Aldeias do Xisto. Fonte de vida sonora e prazer para os nossos ouvidos. Os rios, as ribeiras, as lagoas, as albufeiras, as barragens, as levadas, as nascentes, as fontes, as quedas de água, as rodas, os moinhos, os sistemas de regadio, as praias fluviais… Tanta é a água e as suas dinâmicas acústicas que se poderia produzir um trabalho sonoro exclusivamente com este elemento.

É uma viagem o que aqui se propõem, tal como é necessário viajar para conhecer toda esta rede. A nossa proposta, claro está, é uma viagem sonora e através dela a descoberta de um conjunto de aldeias únicas e vitais no território em que se inserem.

Sente-se confortavelmente, coloque os auscultadores, e parta então à descoberta, através dos muitos sons que compõem estas peças, da rede das Aldeias do Xisto. Boa viajem! 


Luís Antero | Outubro 2013

(texto escrito originalmente para acompanhamento do CD a ser editado...)

Agradecimentos:

Nicole Steijven, Wayne Sutton, António Dias, Alfredo Martins, Adelino Fonseca, José Pereira, Alberto Nunes, D. Natália, Viriato Gouveia, Jorge Ramos, José Branco, Paulo Pinto, Aires Nunes, Ramiro Pinto, José Neves Augusto, Soardósias, Augusto Ascenção, Lucinda Simão, Amélia Gomes, António Costa, Maria Antunes, João Freire, José Pereira, habitantes da Pena, André Claro, Elsa Claro, Manuel Claro, Júlia Nazaré, D. Maria, D. Adelaide, José Amorim, habitantes da Ponte de Fajão, Manuel Jorge, Arlete Santos, Isilda Mendes, Celeste Rodrigues, Manuel Rodrigues, Ana Francisco, Kerstin Thomas, Grupo Etnográfico da Região da Lousã, Maria Celeste, D. Lúcia, Justina Louro, D. Felismina, João Domingos, Manuel Farinha, Francisco Mateus, Maria Martins, Eulália Barreira, Inês Pinheiro, Alzira Martins, Joaquim Alves, Manuela Fernandes, Rui Simão, Bruno Ramos, Miguel Cruz, Eng…., Bruno Fonseca, Graça Silva, José Francisco Rolo, José Carlos Alexandrino, Raquel Castro, Rafael Toral, José Miguel Pereira, Liliana, Marília, Dina e Carlos Tavares, Conceição e Eugénia Tavares, aos meus pais e irmãos, aos meus sogros e um obrigado especial à minha família (Bé, Isaac, Oriana e Samuel)

Para a Bé, sempre!

Dedicado à memória de André Claro (…-2011) e de Eugénia Tavares (…-2014)


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